Vivemos uma polarização insistente — e, em muitos aspectos, doentia — que já se arrasta há quase uma década.
Ao mesmo tempo, há uma percepção de corrupção disseminada nos três poderes, que, para muitos, passou a funcionar como uma espécie de “economia de interesses”.
No cenário internacional, guerras e tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos, China e Rússia apontam para uma transição de ordem global, em que interesses e narrativas disputam espaço, sem qualquer sinal de pacificação no horizonte.
Esse contexto de instabilidade econômica acaba recaindo, sobretudo, sobre as camadas mais pobres da população, que possuem menor capacidade de absorver os impactos da inflação e da perda de poder de compra — fatores que afetam diretamente sua sobrevivência.
Enquanto isso, as elites tradicionais parecem dar sinais de perda de controle, transferindo o custo de suas incertezas para os grupos mais vulneráveis.
É comum, em momentos como este, que estruturas de poder se reconfigurem — e, historicamente, esse processo ocorre com ônus desproporcional para os menos protegidos.
Talvez isso ajude a explicar por que programas sociais são frequentemente criticados, enquanto a corrupção sistêmica é, em certa medida, tolerada por parcelas mais privilegiadas.
Também passa a ser aceitável que pessoas sem experiência assumam posições de liderança, enquanto discursos de ruptura ganham força — mesmo quando, historicamente, tais promessas raramente se concretizam em mudanças reais na vida da população.
Seguiremos assistindo às mesmas justificativas para problemas antigos: economia, saúde, educação, segurança. Uma repetição que, por vezes, chega a colocar em dúvida nossa própria capacidade crítica.
O Judiciário, que tradicionalmente ocupava um lugar de confiança institucional — ainda que nem sempre de concordância —, também passa a ser alvo de suspeitas. E isso impacta profundamente aqueles que viam nessa instituição um símbolo de conduta, responsabilidade e equilíbrio.
No campo religioso, observa-se o crescimento de lideranças movidas por interesses questionáveis, transformando espaços de fé em instrumentos de poder e influência.
Os principais nomes que hoje lideram o cenário político não parecem, até aqui, apresentar respostas à altura da complexidade do contexto global em que o Brasil está inserido.
Cometemos um erro grave ao olhar apenas para um lado, pois essas duas correntes se alimentam mutuamente.
Tanto a chamada esquerda quanto a direita simplificam o mundo para gerar engajamento — mas isso tem um efeito colateral profundo: reduz o espaço para pessoas realmente preparadas assumirem posições de liderança.
Diante de um cenário tão marcado por incertezas, surge uma pergunta inevitável: como reunir forças para votar?
Diante de um cinismo cada vez mais evidente — marcado por corrupção, ineficiência do Estado e decisões políticas orientadas por interesses —, torna-se legítimo questionar: se o sistema não entrega, por que mantê-lo como está?
Não se trata de ruptura irresponsável, mas de reconhecer a necessidade de reformas profundas: melhorar regras, ampliar a transparência, ajustar incentivos e, gradualmente, reconstruir um modelo institucional mais funcional e confiável.

