Reza a lenda que, na China, ela era apresentada como uma antiga maldição. Tempos interessantes não significam tempos bons, mas épocas de instabilidade, guerras, crises, incertezas, transformações sociais e colapsos. "Vivemos tempos interessantes porque as coordenadas básicas que organizavam nossa vida estão se desfazendo. O que parecia sólido torna-se incerto, e somos obrigados a reinventar nossas formas de agir e pensar", diz o filósofo.
Trago essa abertura para produzir uma reflexão sobre as notícias falsas que circulam diariamente pelas redes sociais. O fenômeno não diz respeito apenas à mentira em si. Mas nos faz confrontar com algo desconfortável: nossa profunda preguiça de verificar informações, muitas vezes porque a verdade nos causa incômodo. Preferimos acreditar no político mentiroso, no influenciador conveniente ou na narrativa que confirma nossas convicções, mesmo quando ela contraria nossos próprios princípios.
Em ano eleitoral, o uso da inteligência artificial deve ganhar uma escala inimaginável. Se já estamos saturados pela política, é provável que muitas campanhas concentrem seus esforços nessa tecnologia em busca de votos a qualquer custo. Sob essa ótica, não vejo uma solução imediata.
No entanto, o mesmo remédio que pode matar também pode ajudar na cura. As inteligências artificiais que hoje são capazes de produzir informações falsas também podem nos ajudar a verificar sua autenticidade.
Uma IA pode criar uma foto falsa de uma pessoa cometendo um crime. Outra pode analisar pixels, metadados, sombras e inconsistências faciais para indicar que a imagem foi gerada artificialmente. Uma IA pode produzir uma notícia falsa extremamente convincente. Outra pode cruzar centenas de fontes e apontar inconsistências factuais. Uma IA pode clonar uma voz. Outra pode detectar padrões sintéticos na gravação.
Nesse caso, a tecnologia que traz o problema também oferece a solução. Vivemos uma época em que a verdade pode ser buscada com uma facilidade sem precedentes, desde que exista disposição para procurá-la. Essa espécie de era da luz, na qual tudo parece estar diante de nossos olhos, permite que a ocultação da verdade por ferramentas tecnológicas seja confrontada pelas próprias ferramentas tecnológicas.
Exposição e ocultação convivem em nossa realidade, hoje profundamente mediada pela experiência de viver online. Tudo o que nos toca parece conversar diretamente com aquilo que nos impede, muitas vezes, de distinguir o real da ficção. Já não sabemos se uma fotografia é autêntica, se uma voz foi clonada, se um vídeo foi manipulado ou mesmo se aquele texto publicado por um influenciador com milhares de seguidores foi realmente escrito por ele.
O que me deixa satisfeito com tudo isso é o paradoxo. Quanto maior a capacidade de produzir ilusões, maior também a necessidade de desenvolver mecanismos de revelação. Talvez este seja o verdadeiro desafio dos nossos tempos interessantes: não o desaparecimento da verdade, mas a obrigação permanente de procurá-la.
Por fim, convoco Jesus em uma passagem atribuída a seus ensinamentos: "Nada há encoberto que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a ser conhecido."

