Comparar situações é sempre caminhar por uma linha muito tênue entre fugir da realidade e estar dentro dela. Na política, isso ganha uma dimensão ainda maior, porque a comparação pode relativizar, suavizar ou até justificar aquilo que estamos vivendo. E talvez essa seja também a minha própria desculpa para não encarar uma realidade que, há algum tempo, tem sido difícil aceitar.
Sim, estou em crise com a política e com boa parte dos políticos há bastante tempo. E você que me lê provavelmente já percebeu isso. Mas acho muito infantil desvalorizar a política simplesmente porque vivemos tempos difíceis. Até porque vivi dentro dela por mais de 30 anos e fiz do seu entorno quase uma profissão de fé — para lembrar o rito católico.
Talvez por isso entrar agora no papel de eleitor seja uma experiência que ainda estou tentando compreender.
É curioso observar como nós - independentemente da ala política à qual cultuamos com obsessão cega - conseguimos defender posições e pessoas mesmo quando a realidade parece exigir de nós um pouco mais de distanciamento. Principalmente quando estão em jogo os dois principais candidatos à Presidência. Em algum momento, parece que deixamos de olhar para aquilo que está diante dos nossos olhos e passamos a olhar para aquilo que gostaríamos que fosse verdade. Ou seja, mentimos pra gente mesmo.
E talvez seja justamente aí que a política deixe de ser apenas uma escolha e passe a ser uma espécie de identidade oculta.
O problema é que essa incapacidade de olhar para a realidade pode nos cobrar atitudes que depois serão difíceis de honrar: cidadania, ética, empatia, responsabilidade, respeito e até harmonia. Valores que parecem simples quando falamos deles, mas que se tornam bastante complexos quando precisamos aplicá-los ao lado político com o qual nos identificamos. Principalmente quando carregamos uma cruz ou somos amparados pela fé.
Estar preocupado com o futuro do País parece ter deixado de ser requisito para exercer parte da cidadania. O futuro coletivo foi, de certa forma, deixado de lado por metade de cá e metade de lá. Como se a cidadania pudesse existir apenas dentro desses dois mundos, cada um defendendo sua própria verdade, suas próprias justificativas e suas próprias conveniências.
E isso não é apenas uma preocupação filosófica. É a redução daquilo que chamamos de cidadania ao individualismo e às posições imediatas.
Mas dá para piorar ainda mais? Sim.
O político há muito parece ter se afastado da finalidade que deveria justificar sua existência na sociedade. O cargo é apenas uma função. O mandato é apenas um período. O poder é apenas um instrumento. O que deveria permanecer é o papel que tudo isso deveria cumprir diante da sociedade.
É aí que encontro uma contradição difícil de ignorar. Algo profundo e filosófico: papel e essência.
Nelas, o candidato professa aquilo que acredita que deve fazer, aquilo que pretende transformar e aquilo que promete representar. Mas, depois de eleito, muitas vezes parece perder justamente a essência daquilo que deveria fazer.
Se conseguir, bom voto a todos.

