Os campeonatos, as rivalidades, as Copas, os clubes locais e os de maior expressão. Quase todos nós tínhamos dois ou até três times. Eu, por exemplo, aprendi a ver os jogos com o XV de Piracicaba, mas Velo e Corinthians eram minhas camisas.
Havia também um refinamento diferente, aquele que se traduzia em paixão e sentimento. Meu pai era são-paulino, então era difícil brincar com o time da capital. Acabei torcendo pelo São Paulo quando não envolvia diretamente o Corinthians, por solidariedade. Porém, em diversas decisões entre os dois, preferia assistir aos jogos no bar. Na final do Campeonato Brasileiro de 1990, vi o Timão ser campeão brasileiro pela primeira vez justamente em cima do São Paulo do meu pai.
O futebol era um espaço capaz de unir pessoas com opiniões completamente diferentes sobre outros assuntos. A bola nos blindava, e chegar cedo à redação para sacanear o amigo palmeirense após o fiasco do seu time era a "glória" ensaiada no caminho de casa para o trabalho. Rodada após rodada, pensávamos: quem vou sacanear hoje?
Meu amigo Garcia Rosa, carioca e vascaíno, por exemplo, nos anos 2000, quando nossa "seleção" foi campeã mundial em cima do Vascão, não me deixou perder a oportunidade. Até porque, com Romário e Edmundo em campo, nem mesmo os corinthianos mais apaixonados poderiam imaginar o triunfo paulista.
Nos últimos anos — talvez seja apenas a minha visão de mundo — a política passou a ocupar grande parte desse espaço. Vemos as pessoas discutirem mais o que Flávio disse sobre Lula, ou Lula sobre Flávio, do que a escalação da Seleção, a arbitragem ou o desempenho de um atacante.
O que predomina são as figuras públicas, as declarações, os embates. Olha só: até a religião, que há bem pouco tempo não se misturava à política, tornou-se tema central justamente dentro dela. Muitos brasileiros, principalmente os mais religiosos, que antes não acompanhavam nem política nem futebol, passaram a acompanhar a política como um torcedor acompanha seu time.
A dinâmica é muito parecida: torcida, ídolos, adversários, narrativas de vitória e derrota, comemorações e indignações. Para muitos de nós, acompanhar os movimentos de líderes políticos tornou-se tão ou mais envolvente do que assistir a uma rodada do Campeonato Brasileiro.
Talvez isso não signifique, necessariamente, que o futebol perdeu importância. Ele continua sendo um dos maiores elementos da identidade nacional. Mas parece ter deixado de ser o principal palco das paixões coletivas. A política passou a disputar esse protagonismo, ocupando conversas, redes sociais e até mesmo relações familiares.
Ainda assim, a maior mudança talvez não seja a perda do interesse pelo futebol. O que mudou foi o endereço das nossas paixões. A política encontrou uma forma de despertar emoções tão intensas quanto aquelas que um dia pertenceram quase exclusivamente aos estádios.

