Muitos o repetem de forma irônica; outros, de maneira crítica; alguns, até mesmo, como uma frase de conotação machista. Mas a obra vai muito além disso.
Ele expõe a hipocrisia moral, a culpa, o desejo e o conflito permanente entre a aparência e a realidade. O verdadeiro alvo de sua crítica nunca foi a nudez em si, mas uma sociedade que condena determinados comportamentos enquanto encontra justificativas para, exatamente, os mesmos atos quando praticados por aqueles que considera "dos seus".
A nudez que proponho neste texto não é a do corpo, mas a da política brasileira. É a nudez simbólica que revela as máscaras da conveniência, da lealdade seletiva e da coerência circunstancial.
Na semana que passou, os dois principais candidatos à Presidência protagonizaram episódios que permitem uma reflexão interessante. Mais do que compará-los, vale observar como direita e esquerda parecem se aproximar quando o assunto é coerência.
Ao afirmar que "todo amigo é um irmão", em referência a Jaques Wagner, Lula levantou uma questão que me incomoda em se tratando de marketing político: existe um limite entre a amizade pessoal e a responsabilidade pública? Até que ponto a lealdade a um aliado envolvido em suposta corrupção pode ser interpretada como uma mensagem política?
Do outro lado, Flávio Bolsonaro viu seu articulador nos Estados Unidos, Paulo Figueiredo, tornar-se alvo de críticas após declarações de que mulheres "votam muito mal". Também foi alvo da esposa de seu pai, o que provocou uma fratura enorme com as mulheres.
Os episódios não são idênticos, mas se cruzam em termos de comportamento. Mas ambos conduzem à mesma pergunta: até que ponto a proximidade com alguém envolvido em uma controvérsia, corrupção, desvios de conduta, etc., interfere na responsabilidade pública de quem pretende um cargo político?
Talvez o aspecto mais revelador não esteja nos protagonistas, mas em nós.
Condenamos a amizade do adversário e chamamos de lealdade a amizade do aliado. Reprovamos a incoerência quando ela veste a camisa do outro, mas encontramos explicações quando ela está ao lado de quem apoiamos.
É nesse momento que Nelson Rodrigues volta ao texto.
A tensão entre princípios e conveniência deixa de ser apenas política para transformar-se em espetáculo. E já não sei dizer onde está a verdadeira nudez: se no palco, ocupado pela cena política, ou na plateia, formada por nós, eleitores. "Pão e circo" também cabe aqui.
Percebemos as incoerências. Ouvimos declarações machistas, misóginas ou negacionistas. Enxergamos contradições evidentes. Ainda assim, muitas vezes fingimos que está tudo bem quando elas acontecem "do nosso lado".
Talvez Nelson Rodrigues estivesse certo. A nudez que continua sendo castigada não é a do corpo. É a da coerência. É aquela que a gente sustenta para preservar "amigos" ou ainda aceitar suas mensagens no Whats. Os atores talvez tenham sua lá seus interesses, mas a população em geral, esta que ganha pouco, trabalha muito, vive com pouco e não tem respaldo político, essa não tem a quem recorrer. Porém a maioria de nós apenas rimos, passando figurinhas e memes deste ou daquele candidato, quando deveria pensar ao ver uma situação como essa.

