Tenho falado sobre política neste espaço, mas no texto de hoje quero entrar em um tema bem interessante sobre tecnologia e pensar sobre a relação da Inteligência Artificial com o desenvolvimento de produtos. Não é mais futuro dizer que o software está deixando de ser apenas algo que executa regras para começar a interpretar contextos.
Esta semana participei, na sede do Google Brasil, em São Paulo, do evento From Zero to Hero. Esta é a segunda vez que a empresa em que trabalho me envia à big tech norte-americana para um ciclo de palestras.
A Google tem em sua política receber profissionais e parceiros de negócios para expor aquilo que há de mais avançado e que está saindo de seus laboratórios para o mundo.
Então imagine você: se, há 30 anos, alguém lhe dissesse que existiriam carros autônomos no futuro, provavelmente trataríamos isso como coisa de ficção. E se alguém dissesse que, muito em breve, o código será mais arquitetura, domínio das regras de negócio, produto e processos do que programação?
E isso é uma certeza na verdade já está acontecendo. É exatamente isso que trago para este texto.
Durante muito tempo, tecnologia significou aproximar o negócio do desenvolvedor. Porém, agora me parece surgir uma nova possibilidade: aproximar o próprio negócio da construção da tecnologia.
O desenvolvedor vai desaparecer? Claro que não. Porém, faço um paralelo com algo que fiz por muito tempo: a produção de notícia.
Quem, como eu, foi jornalista no tempo da máquina de escrever sabe que o processo de produção de um texto noticioso era bem complexo. Hoje, podemos entrevistar, produzir e publicar nosso texto usando ferramentas que nos auxiliam profundamente.
Lembro que, para produzir um artigo, recorria aos meus livros, anotações, fontes, professores e a uma extensa rede de arquivos em PDF para saber onde poderia buscar um conceito que explicasse, de forma científica, alguma coisa. Hoje, isso pode ser feito rapidamente com a ajuda da IA.
Substituiu o autor? Claro que não. Mas ela nos entrega agilidade.
Voltando ao software, o humano entra exatamente no processo que é mais crítico: uma inteligência executa uma regra que foi criada por um humano, porém a responsabilidade pelo resultado ainda está sob o controle de quem a criou, ou seja, do humano. Percebe?
Vamos a um exemplo que ilustra um pouco essa situação.
Imagine uma plataforma pública onde milhares de processos são inseridos todos os meses pelos munícipes.
Imagine quantos funcionários são necessários para fazer um trabalho de triagem e verificar simplesmente se não estão faltando documentos.
Um agente de IA poderia fazer isso em segundos, devolver a informação ao interessado ou encaminhar o processo ao setor responsável. Dia e noite.
O agente pode analisar, recomendar e até executar determinadas tarefas dentro das instruções que recebeu. Mas quem estabelece onde ele pode ir?
Um humano. O mesmo que responde pela decisão que deve ser tomada.
Por fim, penso que a programação continuará existindo, assim como o jornalista que, como eu, abandonou a máquina de escrever e acompanhou a revolução tecnológica.
Mas o que fica aqui é a pergunta:
Aprenderemos a projetar o futuro que queremos que a máquina programe?

