Aos poucos, os excessos, a guerra entre torcidas e a violência foram me afastando dos estádios
Quando meu pai ainda estava entre nós, fazíamos verdadeiras maratonas pelos estádios do interior paulista e, vez ou outra, também na capital. Nem sempre eram passeios tranquilos.
Lembro bem de uma partida entre Rio Claro e Noroeste, em Bauru. O estádio estava lotado, e só conseguimos lugar no meio da torcida bauruense. Para complicar ainda mais, o Azulão marcou logo no início do jogo. Restava apenas torcer em silêncio, tentando não chamar atenção.
Na saída, meu pai, que fazia amizade com qualquer pessoa em poucos minutos, engatou uma longa conversa com alguns rapazes. Em determinado momento veio a pergunta: "Vocês moram onde?". Não conhecíamos praticamente nada da cidade e revelar que éramos de Rio Claro talvez não fosse a melhor ideia. Inventamos, então, o endereço mais seguro possível: "No centro". Por sorte, ninguém perguntou a rua. Terminamos a jornada em um posto próximo, "comemorando" o empate do "nosso time".
Outro grande susto aconteceu no Pacaembu, em São Paulo, com meu amigo Garcia Rosa e seu filho, Luis Felipe. Era Corinthians e River Plate. O Timão perdia, o clima esquentava e a torcida começava a ferver. Estávamos do lado oposto ao antigo Tobogã.
Foi um caos. Polícia montada, bombas de gás lacrimogêneo, de efeito moral, empurra-empurra... Em meio à confusão, perdemos o Luis Felipe, que ainda era garoto. Cada um acabou sendo levado para um lado. No meio da correria, fiz um amigo de ocasião, que me mostrou por onde escapar daquele tumulto. Depois de muito procurar, consegui reencontrar o Garça e o filho. Terminou tudo bem, mas foi um daqueles dias que não se esquecem.
De Ribeirão Preto a Bauru, passando por cidades de toda a região e chegando à capital, conhecemos praticamente todos os estádios onde os times disputavam a elite do Campeonato Paulista.
Quando trabalhei na Assembleia Legislativa, às vezes recebia ingressos para os jogos do Corinthians. O então deputado Aldo Demarchi fazia parte da chamada "bancada corinthiana" da Alesp. Na campanha da Série B do Campeonato Brasileiro, minha presença no Pacaembu acabou se tornando frequente.
Nas últimas Copas, porém, parece que fomos desaprendendo isso. Passamos a torcer mais contra do que a favor. Contra esta ou aquela seleção. Contra este ou aquele jogador. Contra qualquer país que pudesse ameaçar nossos cinco títulos. A rivalidade, que antes fazia parte da festa, passou a ocupar o lugar da celebração.
Ainda gosto do jogo. Gosto da bola rolando, das histórias improváveis, dos heróis anônimos, da criança que veste pela primeira vez a camisa do seu time. Sinto falta daquele futebol que terminava no apito final e continuava apenas nas boas conversas da mesa do bar.

