Custodes sui
Tenho acompanhado a greve dos alunos da Universidade de São Paulo, mais especificamente no campus Butantã, por conta de minha filha que estuda por lá. O que se vê, no fim das contas, é um retrato bastante brasileiro: reposição salarial e valorização de carreira avançam com relativa rapidez, enquanto estudantes, funcionários terceirizados, manutenção predial e qualidade de vida universitária seguem em segundo plano.
Boa parte do orçamento universitário é consumida por salários e aposentadorias. Ou seja, há pouca flexibilidade orçamentária dentro da universidade.
Nem todos sabem, mas a USP possui características admiráveis. Seus professores, em grande parte, são doutores, trabalham com ensino, pesquisa e extensão, muitos em regime de dedicação exclusiva. O problema não está na existência da carreira acadêmica em si, mas na forma como ela se relaciona com a realidade social ao redor.
Em muitos casos, os salários são elevados para os padrões brasileiros e possuem impacto significativo também nas aposentadorias. Isso cria uma universidade com muita folha e pouca capacidade de investimento em infraestrutura, manutenção e renovação.
E é justamente aí que surge o desconforto. Fora dos muros universitários, cresce a percepção de que parte do corpo docente vive uma trajetória excessivamente fechada dentro do próprio ambiente acadêmico. Muitas discussões tornaram-se cansativas para a sociedade porque parecem desconectadas do cotidiano real das pessoas. Disputas por bônus e benefícios soam distantes de um país marcado por precariedade, baixa renda e falta de perspectivas.
Talvez por isso, na ótica da opinião pública, o professor universitário passe a ocupar, injustamente ou não, uma posição semelhante à de outras categorias vistas como privilegiadas, como setores do Judiciário, uma parte do funcionalismo público e políticos.
Por outro lado, seria simplista ignorar que a USP concentra pesquisas importantes e diretamente ligadas aos problemas nacionais. A contradição está justamente aí: a universidade pesquisa sobre desigualdade, exclusão e pobreza, mas muitas vezes opera internamente distante dessas próprias condições. Isso gera um paradoxo de legitimidade. A produção intelectual permanece frequentemente no diagnóstico, enquanto a transformação concreta acontece pouco, inclusive dentro da própria universidade.
É importante também ajustar a lente. Nem todos os professores recebem salários extravagantes como parte da sociedade imagina. Há caricaturas e exageros no debate público. O ponto central não é atacar indivíduos, mas discutir um modelo que combina carreira, estabilidade e acomodação estrutural.
A questão mais importante talvez seja outra: como conectar produção intelectual e transformação prática sem que o conhecimento vire apenas retórica institucional?
O Brasil produz muito pouco em tecnologia estratégica. Em muitos momentos, o ambiente universitário parece fechado em si mesmo. Ainda assim, existem avanços importantes. Embraer, Embrapa, Instituto Butantan e Fiocruz demonstram que há competência instalada no país. Mas esses casos não resolvem o problema estrutural.
O Brasil segue dependente de tecnologias-chave vindas de fora. O resultado é um ciclo conhecido: a universidade pesquisa, mas a indústria não absorve; o conhecimento é produzido, mas não ganha escala econômica.
Ela expõe o esgotamento de um modelo institucional em que carreiras se consolidam, mas o país continua incapaz de converter parte significativa de sua produção intelectual em desenvolvimento amplo, tecnológico e social.
Diógenes Pasqualini
Este Blog eu o mantenho pelos textos que publico regularmente em mídia impressa.
Mestre e Doutor em Comunicação. Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral. Estudou nas Universidades Unimep - Piracicaba, USP e PUC por 12 anos.
Tecnologia e Informação. Na TI encontrou uma nova oportunidade de Comunicação e desenvolvimento de Projetos. Atua na Empresa Softpark Tecnologia Ltda.