Castas e crenças
Este texto busca dialogar com uma reflexão que há muito tempo me acompanha: o meio molda quem somos?
Autores como Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Hannah Arendt e Jean-Paul Sartre, entre tantos outros, desenvolveram linhas de pensamento sobre moral, instituições, poder, liberdade e condicionamento social. Cada um, a sua maneira, tentou compreender até que ponto somos autores de nós mesmos ou produtos dos ambientes que habitamos.
A recente notícia sobre o estreito envolvimento entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro me faz pensar em como os instrumentos econômicos e as estruturas de poder exercem força sobre todos nós e, dependendo do caráter e do meio em que estamos inseridos, acabam influenciando profundamente a forma como agimos. Muitas vezes assumimos discursos sobre corrupção, por exemplo, ou avaliamos a conduta de terceiros sem percebermos aquilo que nós mesmos fazemos ou reproduzimos. E mais: frequentemente midiatizamos, defendemos e trabalhamos em prol de indivíduos nos quais acreditamos, mesmo quando eles próprios são frutos de meios capazes de corromper seja lá quem for.
Também deixo um alerta: não pretendo banalizar atitudes ou transformar este texto em julgamento de indivíduos específicos. O ponto que desejo discutir talvez seja outro: existe uma normalização daquilo que determinados grupos consideram corrupção e daquilo que escolhem não considerar.
Quando focamos apenas na questão ideológica, passamos a defender quase qualquer prática. Não é só na política que construímos uma espécie de moral paralela: se o outro rouba, é ladrão; se o meu lado é acusado, então tudo se torna “questionável”, “interpretativo” ou “perseguição”. Religião, educação, raça, crenças e tantos outros elementos também entram nessa lógica.
Em uma leitura mais foucaultiana, o poder não apenas reprime; ele molda comportamentos e redefine aquilo que passamos a considerar aceitável. Dentro dessa lógica, escolhemos ser condicionados enquanto projetamos o mal apenas no outro. Passamos a acreditar que os ambientes que frequentamos, as pessoas que admiramos e os sistemas que alimentamos internamente estão livres de qualquer mácula.
Talvez essa contradição acompanhe permanentemente a experiência humana nessa eterna tensão entre bem e mal, virtude e corrupção, Deus e Diabo.
Relativizamos crenças, valores, linguagem e limites para preservar a ideia de que aquilo que beneficia o nosso grupo permanece dentro de uma suposta normalidade. E justamente por pertencermos a um grupo deixamos de estranhar aquilo que, em outros contextos, condenaríamos imediatamente.
O marketing compreendeu profundamente essa lógica de pertencimento. Por isso somos levados a consumir não apenas produtos, mas símbolos, narrativas e figuras públicas. Compramos tudo: de sabão em pó a candidatos. E talvez o mais perigoso nisso seja o fato de nos tornarmos guardiões apaixonados de conceitos que, muitas vezes, nos aprisionam.
Não estamos falando, por exemplo, apenas de projetos para o Brasil. Muitas vezes discutimos famílias, sobrenomes e castas que se alternam na administração do poder. Todos desejam um país melhor, mas a escravidão ideológica e os instrumentos de poder frequentemente nos impedem de retirar o véu e enxergar além daquilo que aprendemos a defender.
Por outro lado, meios saudáveis elevam comportamento, responsabilidade e consciência. Mas eles também cobram um preço: atravessar, muitas vezes sozinhos, caminhos que exigem reflexão, angústia e dor.
Diógenes Pasqualini
Este Blog eu o mantenho pelos textos que publico regularmente em mídia impressa.
Mestre e Doutor em Comunicação. Especialista em Marketing Político e Propaganda Eleitoral. Estudou nas Universidades Unimep - Piracicaba, USP e PUC por 12 anos.
Tecnologia e Informação. Na TI encontrou uma nova oportunidade de Comunicação e desenvolvimento de Projetos. Atua na Empresa Softpark Tecnologia Ltda.