Dia desses cheguei um pouco tarde de São Paulo. Na manhã seguinte, acordei cedo para pedalar e tomar café de posto.
No caminho de casa, parei no semáforo na Rua 5 com a Avenida 29. Talvez quem me leia de outras partes do mundo não consiga visualizar exatamente a cena. O que aconteceu ali poderia ter acontecido em qualquer cidade.
Enquanto o sinal estava fechado, eu treinava uma técnica que gosto bastante no ciclismo: o track stand, ou seja, permanecer praticamente parado sobre a bicicleta, mantendo o equilíbrio sem colocar os pés no chão.
Também gosto do bunny hop, que é levantar a roda dianteira e deslocar o peso do corpo para trás e deixar a bike flutuar, útil em ruas esburacadas.
Quando criança, eu costumava empinar a bicicleta e andar em uma roda. Hoje já não faço isso com tanta frequência. Afinal, pedalo com os pés presos aos pedais e, com o desequilíbrio, o tombo é certo.
Mas, no meu mundo, estava ali, equilibrando-me sobre a bike, enquanto um carro aguardava logo atrás. O sinal abriu e seguimos.
Quando me ultrapassou, uma garotinha que estava dentro dele abriu o vidro e começou a aplaudir efusivamente. Em seguida, soltou um daqueles gritos espontâneos de criança:
— Aêêêêêê!
Delícia das mais deliciosas, porque trouxe minha filha Evelyn e sua espontaneidade de quando também era criança.
Aliás, quando meus filhos eram pequenos, lembro que eles tinham aulas sobre trânsito. E, inicialmente, pensei que os aplausos fossem simplesmente pela técnica na bicicleta. Depois, porém, fiquei pensando que talvez não fosse isso.
Creio que ela estivesse aplaudindo porque eu havia parado no sinal. Muito provável que tivesse aprendido naquela semana — ou naquele semestre — que, quando o semáforo está vermelho, devemos parar.
E aquela possibilidade me deixou feliz, porque, de certa maneira, as duas coisas conversam com sentimentos verdadeiros.
Mas a pequena cena também me levou de volta a São Paulo e ao seu trânsito cada vez mais violento.
Há mais de 30 anos viajo, quase semanalmente. Ao longo desse tempo, vi muita coisa mudar nas estradas e nas cidades. Mais carros, mais motos, mais velocidade, mais pressa e, principalmente, mais mortes.
Quando olho para os painéis das marginais com números relacionados às mortes no trânsito, vejo que não é só o motorista ou o pedestre que não está fazendo seu papel, mas também os políticos em geral.
É época de eleição e os santinhos começam a chegar, com candidatos nos procurando em busca de votos. Sim, eles nos procuram para pedir nossos votos, mas não necessariamente para saber das nossas necessidades depois de eleitos.
Então, candidato, talvez seja hora de lembrar que as estatísticas do trânsito não são responsabilidade apenas de quem está atrás do volante, sobre uma bicicleta ou conduzindo uma motocicleta. Vocês também são responsáveis pelas decisões públicas.
Por fim, com todo respeito, penso que cada morte no trânsito deveria incomodar não apenas a família que perdeu alguém, mas também o político que tem a responsabilidade de criar políticas públicas, melhorar a fiscalização, cuidar das vias e organizar a mobilidade.

